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Revista Boa Estrela - 2002
ASTROTERAPIA

Desde os tempos mais antigos a Astrologia permitiu ajudar-nos não somente na procura dos acontecimentos que marcam as nossas vivas mais também na descodificação das tipologia dos caracteres, se convertendo numa “ferramenta” primordial para situar-nos no meio do imenso universo.

Etimologicamente, a palavra Astrologia vem do Grego: Astrologia, Astro = ASTROS e
Logia = teoria, discurso sobre, permitindo-nos formar a frase seguinte:
«teoria o discurso sobre os astros»

Embora na sua origem, fosse usada no Egipto Antigo para definir os ciclos das temporadas e a meteorologia, converteu-se rapidamente graça a sua precisão e riqueza num meio adaptável e indispensável as outras disciplinas como a medicina, a Alquimia e a ciência da época
Durante largos séculos, os grandes saibos utilizaram a Astrologia, adaptando-a e fundindo-a com outras metodologias; sendo que a matéria e o espirito era para eles uma continuidade o a expressão separada duma mesma verdade universal.
(Paracelso era por exemplo, um grande astrólogo e na nossa época podemos citar C.G Jung e A.Enstein)
Infelizmente, cinco séculos de Inquisição e a explosão cientifica dos dois últimos séculos denegriram a verdadeira dimensão da Astrologia.
Não que seja preciso rejeitar a ciência, ela permitiu e permite revelar grandes mistérios mas em certos casos a sua arrogância levo-a a querer ter a verdade absoluta sobre todos os assuntos. (como a religião também o fez durante a Inquisição)

Actualmente, os utilizadores da Astrologia são numerosos mas são muitas vezes vistos como meros fantasistas ignorantes e ingénuos o como pseudos-gurus que aproveitam os seus supostos poderes para manipular et enganar as pessoas em aflição.(por desgraça, as vezes acontece mesmo)

A Astrologia terapêutica permite-nos restituir o seu verdadeiro lugar e valor a astrologia.
Podemos chama-la por psico-astrologia o astrologia psicológica o ainda astroterapia, sempre terá a mesma função, a de ajudar o próximo a descodificar os seus sofrimentos, as suas problemáticas emocionais, os acontecimentos e de o recentrar no caminho da vida.

A Astroterapia é antes de todo um método de cura que segue uma metodologia bem definida e na qual fusionam as técnicas de Astrologia, a Psicopatologia (estudo dos desordem do comportamento, problemáticas emocionais e psicológicas), a descodificação da origem dos sofrimentos que muitas vezes provem da infância o da adolescência (psicologia do desenvolvimento) e as vezes das vidas passadas, a psicologia dos arquétipos (C.G Jung) e diversas técnicas de psicoterapia que permitiram a pessoa de se libertar e de se curar.

O prático da Astroterapia terá obrigatoriamente de ser formado em Astrologia, em Psicologia, e a uma o varias técnicas de psicoterapia o a psicanálises.
Também terá feito alguns anos de psicoterapia pessoal durante as quais se terá “purificado” dos seus diversos medos existências para converter-se num “canal transmissor” limpo.
Usara uma metodologia aplicada precisa e seguira um código deontológico estrito com a intenção de garantir o anonimato dos pacientes assim como o conteúdo das consultas e de as respeitar tanto de um ponto de vista psicológico, físico e moral.

A Astroterapia vem da Astrologia humanista, e o movimento humanista (o humanìstico como também o chamam) esta ligado a psicologia Transpessoal.
Uma das noções centrais dessa è o desenvolvimento pessoal e a noção de evolução existencial, o ser humano tem uma necessidade vital de saber e de compreender porque esta aqui. (C.G.Jung fala que a origem das neuroses seria em parte ligada ao facto de não se saber o ver um sentido as nossas vidas ).
As técnicas de psicoterapia transpessoal assim como a Astroterapia permitem ajudar a pessoa a descobrir seu potencial e seus dons levando-a se abrir a seu caminho de vida que só pertence a ela.

As consultas são totalmente individualizadas porque nenhum ser è idêntico,
a astrologia permite graça aos ciclos planetários que nos informam em que momento da nossa evolução e fase de crescimento existencial se encontra a pessoa assim como a ajudar a clarificar os desafios e conflitos internos e externos que a vida lhe apresenta nesse momento.
Deste modo, as crises existenciais convertem-se em verdadeiros impulsos para o crescimento e a evolução.

Vivemos numa sociedade muito perturbada, estresse, perda dos valores e referencias, violência etc., o ser humano não sabe mais quem è e o que esta aqui a fazer.
A mulher, em particular se encontra numa busca do seu papel existencial que gerações de mulheres antes dela perderam muitas vezes durante os séculos “castradores” patriarcais.
As mulheres de hoje, procuram como viver com emoções e valores de mulheres, num mundo onde os valores materialistas e de combates de tipo masculinos estão no seu auge.
Se sentem muitas vezes cortadas do seu mundo emocional, das suas faculdades e valores criativos procurando adaptar-se e sobreviver num mundo violento onde não são o amor e os sentimentos que prevalecem mas o ódio, o poder e a competitividade.

A Astroterapia permite ajudar a mulher a se reencontrar na sua trilha, estamos todas nessa procura evolutiva, que nos seja consciente o não.
As vezes, nos perdemos, surgem então grandes sofrimentos e crises existências que se traduzem por depressões, estresses, angustias, fobias o obsessões diversas assim como doenças físicas.

Através da analise do mapa astral associado as varias técnicas psicoterapeuticas, a Astroterapia permite redescobrir o caminho e compreender qual è o nosso “projecto de vida” para o nosso bem estar existencial.

Tomando consciência das nossas crenças assim como dos nossos padrões de comportamentos e transformando-os, podemos criar vidas harmoniosas de acordo com as nossas verdades mais profundas não somente para nos mais também para os demais.

Isso, permitira tal vez, que através da transformação individual se transforme também a sociedade para dar um mundo melhor para os nossos filhos.

Nathalie Durel

© Nathalie Durel-2002- Todos direitos reservados
Revista O Público - 2006
Jornal Público : Na sua opinião quais são as grandes diferenças entre as teorias de Freud e Jung sobre o papel dos sonhos, ou seja, são os sonhos “apenas” desejos recalcados ou uma “porta” que se abre para outros mundos e nos permite ir descobrindo um sentido para a vida?
Nathalie Durel: Primeiro, gostaria de salientar que Freud foi o precursor na análise dos sonhos, seu método da interpretação dos sonhos alicerçava-se sobre as livres associações efectuadas nas sessões psicanalíticas.Mais adiante, Jung criou a sua própria teoria dos sonhos.Tanto para Freud como para Jung, os sonhos são “O Caminho Real” que levam ao inconsciente. Podemos dizer que as diferenças e divergências que separaram Freud e Jung naquela época subsistem até os dias de hoje com duas correntes psicanalíticas separadas, mas, na minha opinião, as duas são complementares. Freud considerava que o sonho é um sintoma neurótico resultante dos desejos e pulsões sexuais recalcadas que o sonhador esconde dentro da confusão das imagens oníricas. Ao contrario, Jung encontra nos sonhos um factor de equilíbrio(compensatório) da psique.
Para ele, (Jung) a psique é um sistema auto-regulador que ajuda o equilibro de todo o metabolismo. Essas teorias diferentes provém também do facto de que ambos tinham uma visão diferente do inconsciente: para Freud, equivale a um espaço de “descarga”do material recalcado, para Jung, o inconsciente é um guia interno. Foi através da observação e análise dos sonhos dos seus pacientes (normais, neuróticos e psicóticos) que a atenção de Jung foi chamada para a recorrência e permanência de certas imagens simbólicas universais que chamamos de arquétipos. Estes arquétipos provém das religiões do mundo inteiro, dos mitos, dos contos, das nossas memórias ancestrais e das grandes tradições. Decidiu ele então chamar este inconsciente de coletivo, em oposição ao inconsciente pessoal Freudiano. No conceito Junguiano, os sonhos são a ponte entre o consciente e o inconsciente que nos permitem acessar as informações mais secretas da psique. Eles nos abrem a matéria prima dos alquimistas, os sonhos são a matéria da Obra alquímica que precisa ser conscientizada e transformada para alcançar a plenitude existencial total.

JP : Como se deu a sua aproximação à teoria de Jung sobre os sonhos e o inconsciente?
ND:Eu sempre procurei(e ainda procuro)respostas sobre: quem somos?de onde viemos? para onde vamos? Estas foram as perguntas existenciais fundamentais quando eu me formei em Psicologia, só que, as respostas que eu recebi na formação universitária se limitavam ao ser humano de um ponto de vista fisiológico, cognitivo e emocional. Não havia nada de Transpessoal que falasse das dimensões sagradas do ser. Então,diante da minha profunda frustração decidi procurar respostas através de varias especializações e foi na obra de C.G.Jung e dos seus seguidores que encontrei as respostas da minha insaciável curiosidade existencial.
Para mim, a noção de individuação*, ou seja, o facto de saber e vivenciar no meu dia a dia que “SER HUMANO”, é viver numa evolução consciente para alcançar um total estado de plenitude, faz todo sentido.
*Individuação: Processo consciente de formação do individuo É o alargamento da esfera de consciencia e da visão psicológica consciente.


JP : Através da análise de sonhos identifica, na sua prática clínica, manifestações dos arquétipos do inconsciente colectivo? Que consideraria como imagens mais comuns?
ND:Sim, claro, os arquétipos estão sempre presentes. Quando começamos a analisar os sonhos, é fundamental levar-se em conta “a seqüência”dos sonhos de uma sessão a outra. Jung dizia que raramente analisava um sonho isoladamente, fora de um contexto.
A seqüência nos permite ver toda “ a historia” que o inconsciente nos conta. E começam a surgir muitas imagens do inconsciente coletivo. Existem símbolos mais recorrentes, como o arquétipo da mãe, do pai, da criança, da sombra, do divino, do velho sábio, da morte, da Anima (função feminina da psique), do Animus (função masculina da psique) etc. Como, eu trabalho principalmente com as mulheres, surge bastante o arquétipo do homem sinistro que representa o predador natural da psique.Isto, revela à mulher a importância de acordar uma parte dela que é inconsciente e destrutiva, mas também pode representar o entorno cultural, familiar ou profissional que não a deixa ser quem realmente ela é.

JP : Como influencia a interpretação e a tomada de consciência da realidade exprimida por um sonho, no processo pessoal de individuação, um dos conceitos-chave de Jung?
ND:Um dos conceitos Junguiano fundamental é o arquétipo do Self (o Si-mesmo). O Self é o arquétipo da totalidade, o centro regulador da psique. Tem um poder Transpessoal, uma força que transcende o Ego e sobre o qual o Ego não possui controle. Sua função é de nos impulsionar para a plenitude, para a nossa totalidade, para a integração da nossa sombra, das nossas projeções e para o reconhecimento autentico de quem somos e o que é realmente importante para nossa historia individual. A quem diga que é a voz de Deus dentro de cada um de nós! Nos sonhos, o Self pode se manifestar de muitas formas: pode ser uma voz forte que chama a atenção, um jardim com um ponto central, um mago, um juiz, Deus...
Pode também ser uma mandala, um cristal, uma fonte, um palácio, uma criança divina, ouro, tesouro..etc
Quando o paciente se depara com um sonho no qual o Self se manifestou, ele próprio sente que este sonho foi diferente (Jung chamava este tipo de sonho de numinosos) e geralmente, chega a consulta emocionado e grato por ter vivenciado tal manifestação. É sempre um ponto importante no processo terapêutico do paciente. Fica então confirmado que enfim! existe um mundo luminoso dentro dele mesmo, proporcionando-lhe muito conforto e confiança ( fé, para quem o quiser, assim chamar-lhe) para seguir na sua caminhada.

JP : Que técnicas usa para a interpretação dos sonhos? Essa interpretação é feita com a colaboração do paciente?
ND:A interpretação dos sonhos sempre é feita com o paciente. O facto dele “contar” o sonho em voz alta o ajuda a formatar de um modo “lógico” as mensagens oníricas que até aquele momento ainda faziam parte do mundo escuro e abstrato do sono. Verbalizar o sonho, na luz do dia e ao terapeuta que se torna receptor e “interprete” desse mundo até então só visível pelo paciente, permite-lhe esclarecer muitas coisas da sua psique.
Também as emoções e a linguagem corporal do paciente enquanto está a relatar o acontecido são ricas em informações para o terapeuta e também para o paciente que se depara com sensações, emoções e livre associações de palavras que não suspeitava até então. Na sequencia analisa-se o sonho através da simbologia do seu conteúdo que é feito com a ajuda da leitura simbólica universal e da leitura Junguiana da psique. As vezes também utilizo a leitura Freudiana que se adapta melhor a certos sonhos. É fundamental salientar aqui, que este trabalho de interpretação do sonho sempre é feito com o paciente, porque, apesar dos símbolos terem uma leitura universal também deve se levar em consideração aquilo que este símbolo representa na vida, cultura, religião e historia familiar do paciente. Por esta razão, os dicionários que supostamente interpretam os sonhos nunca acertam em nada e ainda bem, isto prova a riqueza de cada ser humano.

JP: Costuma interpretar os seus próprios sonhos, ou recorre a um apoio exterior?
ND:Depende do sonho. As vezes, consigo interpreta-lo sozinha, mas em certas situações peço ajuda as colegas terapeutas ou a minha supervisora em Portugal que é Freudiana. Quando preciso de uma leitura Junguiana peço a minha supervisora do Rio de Janeiro. Parece um pouco complicado mas eu já estou acostumada com esta “ginástica” analítica e para mim é muito importante pedir ajuda de fora. Nós terapeutas temos que ter consciencia que precisamos fazer terapia regularmente para nos ajudar a esclarecer nossas situações pessoais ou casos clínicos mais complicados. Na minha opinião o terapeuta, que se diz perfeito e que pensa já ter ultrapassado todas suas feridas e dores existenciais, é totalmente arrogante e pouco verdadeiro. Nós somos seres humanos e como os demais, tentamos evoluir a caminho da individuação.

“O TRABALHO SOBRE O INCONSCIENTE, NUNCA SE ACABA”
C.G. JUNG

© Nathalie Durel – 2006 -Todos direitos reservados
Revista La vie Nature - Dezembro 2006
A MUDANÇA É UM ARQUÉTIPO


Quando a revista A Vida Natural me propôs escrever este artigo sobre a mudança, fiz-me numerosas perguntas. De facto, o tema é vasto! Após reflexão, decidi continuar a ser fiel a minha abordagem terapêutica especializada no feminino (por conseguinte, não mudar!) e centrar-me na minha experiência de psicoterapeuta transpessoal e Junguiana.
No dicionário, a definição da palavra mudança é: ação de alterar; resultado desta ação. Os termos conexos são numerosos e iluminam-nos largamente sobre a amplitude da sua ação: transformação, perturbação, renovação, modificação, transição, metamorfose, mutação, deslocação, instabilidade, movimento, alterar, deformar...etc. só para citar alguns!
Cada uma destas palavras permite-nos sentir que a mudança não é um assunto simples e que, quando emerge na nossa vida, pode ocasionar perturbações profundas.
Carl Gustave Jung fez dos arquétipos um dos eixos principais da sua teoria analítica. Estes são considerados como imagens primordiais inscritas no inconsciente coletivo dos homens desde o início da humanidade. Reencontramo-los nos mitos primordiais, as religiões, as lendas que alimentam o patrimônio coletivo e que nos influenciam conscientemente e sobretudo inconscientemente.
Só para citar alguns exemplos: o arquétipo da mãe, do pai, da criança, do herói, do dragão, da bruxa, do divino, da morte e transformação...e da mudança.

Numerosos mitos falam-nos da mudança e da transformação, mas, no que diz respeito ao feminino, acho que o mito Grego de Perséfone é a base fundamental da transformação feminina.
Core (nome de menina de Perséfone) brincava acompanhada com as ninfas enquanto sua mãe Demeter (deusa da colheita e da agricultura) trabalhava por perto. De repente, o solo pôs-se a tremer, uma falha abriu e Hadés,”Deus dos infernos”, emergiu das entranhas da terra apoderando-se de Core. Levou-a à profundesa da terra e fez dela sua esposa deixando Demeter num tal estado de desespero que resolveu deixar de produzir enquanto não encontrasse sua filha, conduzindo então a humanidade inteira para um grande perigo. Após numerosas suplicações, Zeus aceitou pedir à Hades que deixasse Core retornar à superfície da terra para reencontrarse com sua mãe e Hades aceitou. Demeter, uma vez passado a alegria do re-encontro, pergunto a sua filha se Hades tinha-lhe dado alguma coisa para comer enquanto da sua estada no inferno, esta respondeu com ingenuidade que havia compartilhado apenas 3 pequenos grãos de Romã”. Demeter, então, compreendeu que sua filha nunca mais seria a mesma menina já que a Romã simboliza o ciclo menstrual mas também o ato sexual. Doravante seriam separadas durante dois terços do ano e Core transformou-se então em Perséfone, deusa dos mortos e dos infernos.
Este mito fundamental marca a separação obrigatória da transformação da jovem em mulher.
A relação fusional com a mãe deve cessar um dia, este estado paradisíaco que gostaríamos que fosse eterno, um dia, tem que acabar. Hades, representa aqui, não só o homem que desfaz esta relação mas também e sobretudo a mudança profunda que decorre. Esta passagem iniciática deve ser vista como uma morte e transformação, que claro é simbolizada pelo mestre do inferno e da morte. Mas antes de tudo porque através do casamento Perséfone torna-se por sua vez deusa como a sua mãe.
A mudança é por conseguinte fundamental para que haja uma evolução existencial. A natureza não gosta da estagnação, tudo está em perpétuo movimento! Este famoso provérbio Budista expressa muito bem esta lei “a única coisa perpétua é a mudança”

Cada mudança comporta pelo menos quatro fases fundamentais:
1 : a identificação da problemática e a análise das necessidades estratégicas
2 : a escolha da melhor estratégia
3 : a preparação e o desenvolvimento do plano de mudança
4 : o acompanhamento das transições organizacionais e individuais que foram desencadeadas
pela mudança
Esta última fase é comparável às cinco fases do processo de luto:
1: Choque e negação 2: Cólera 3: Regateio 4:Depressão 5: Aceitação e renascimento
Estas cinco fases são obrigatórias em qualquer mudança, naturalmente a intensidade e a duração de cada fase dependerá da pessoa e da situação.

A astro-psicologia é uma disciplina que utiliza o tema astral como um guia arquétipal do nosso inconsciente, a sua evolução e claro das mudanças que poderão acontecer. Os trânsitos planetários marcam profundamente as grandes mudanças existenciais tanto a nível individual como coletivo. Além das mudanças ocasionais que ocorrem numa vida (certos indivíduos estão mais aptos as mudanças que outros) a passagem de 40-42 anos é fundamental para todos; Urano, o grande libertador das estruturas enraizadas marcadas por Saturno chega à 180º dele mesmo ocasionando grandes mudanças. Plutão (o Hadés Grego) igualmente, marca transformações profundas e provoca mudanças que equivalem à morte/renascimento que nos desestabilizam mas que com certeza, irão transformar-nos no mais profundo do nosso ser.
Faz um ano que Júpiter transita no signo de Escorpião (signo de Plutão) até Dezembro de 2006 e está a causar numerosas mudanças em muitas pessoas, algumas destas mudanças poderão continuar a ocorrer no primeiro trimestre 2007. Se a mudança não acontecer, pelo menos, Júpiter terá permitido tomadas de consciência à este nível e nos terá confrontado com os nossos mêdos e/ou desejo de mudança.
A Vida Natural me fez algumas perguntas sobre o tema da mudança na minha atividade de terapeuta:
AVN: Como a mudança faz-se sentir a nível da mulher?
N.D: Isto depende muito do seu nível de consciência em relação com o seu ser profundo. Infelizmente, ainda para muitas mulheres, é através de acontecimentos desestabilizadores como um divórcio ou uma doença física e/ou mental que se encontram confrontadas com a obrigação de mudar e de se transformar.

AVN: As expectativas evoluíram? Não somente em relação aos homens mas em relação à tomada de consciência do seu corpo, a mulher-objeto transformou-se em mulher “atriz”da sua vida?
ND: Bem que houve grandes mudanças em relação aos homens, a cada vez mais mulheres que não querem mais ser iguais aos homens mas serem iguais à elas próprias. Querem descobrir quem são realmente liberando-se dos condicionamentos familiares e socio-culturais. A palavra mudança aqui está ligada à libertação consciente e não mais a revolução como nos anos 60.

AVN: Nas vossas terapias, concretamente, vê as demandas mudarem?
ND: Sim e não! Sim, porque cada dia mais aparece no meu consultório mulheres em busca de uma transformação consciente. Não, porque os pedidos são recorrentes, posso citar como exemplo: encontrar o seu equilíbrio existencial e emocional, a falta de auto-estima, se autorizarem em ser; o equilíbrio no relacionamento entre dar-se demasiado, ou não, o bastante; encontrar os seus limites internos e externos; maus tratamentos, etc. As queixas mais frequentes são: a depressão e a angustia seguidos dos sintomas físicos e sobretudo a nível ginecológico, o que marca o quanto ainda estão desligadas de suas identidades femininas.
Em contrapartida, e é de se lamentar, cada vez mais, jovens mulheres com problemas de anorexia.
Por conseguinte, há ainda muito que se fazer em termos de mudança consciente na mulher.

Para concluir, gostaria de sugerir uma ajuda terapêutica natural para as fases de mudança graças às essências florais das Bush Flowers da Austrália. Os aborígines da mesma maneira que as nossas avós utilizavam a Doutrina das Assinaturas para encontrar as plantas e flores adequadas para tratamento de patologias físicas e ou mentais. Esta doutrina consiste a encontrar na natureza uma planta ou flor que tem pelo seu aspecto as características do problema a tratar.
A planta Bauhinia possui flores em forma de borboleta. Esta simboliza desde a noite dos tempos a transformação: é considerado um arquétipo primário!
A existência da borboleta é totalmente marcada pela morte e transformação, em especial na fase crisálida durante a qual se destrói na sua totalidade para reaparecer sob a forma de uma bonita borboleta.
A essência de Bush Bauhinia trata a problemática da mudança, em particular a resistência e permite aceitar a passagem à uma nova vida.
Igualmente, a essência Bottlebrush trata as mudanças obrigatórias na existência de uma mulher. É recomendada nas passagens como: a puberdade; a gravidez; a maternidade e a menopausa. Ajuda a fazer face guardando ao mesmo tempo calma e serenidade.

Desejo a todas vocês, uma grande mudança consciente!

Nathalie Durel

© Nathalie Durel-2006- Todos direitos reservados
Revista Psicologia Actual - Setembro 2006
REFLEXÕES SOBRE AS ORIGENS E EFEITOS DOS FOGOS DE ARTIFICIO NAS PESSOAS

Neste mês de Setembro terá lugar em Lisboa o Mundial de Pirotecnia 2006 na Torre de Belém.
Trata-se de um espectáculo com uma grande qualidade artística que apresenta numerosos fogos de artificio sincronizado com a música.
Sabendo quanto os fogos de artificio suscitam fortes emoções em todos, pequenos e grandes, torna-se interessante analisar o que este tipo de exibição, para além da beleza do espectáculo pode significar para o ser humano.
Assistir a um lançamento de fogos de artificio é um acontecimento sempre invulgar.
Raras são as pessoas que não gostam dos fogos de artificio e a maioria é imbuída por uma série de emoções que torna-se impensável resumir numa só palavra. Alegria, prazer, emoção, admiração, euforia, excitação, fascinação ou mesmo êxtase, são as expressões mais comuns para definir o fascínio destes eventos.
Por conseguinte, esta explosão nocturna de luz colorida toca à níveis profundos o nosso ser e corresponde não só a uma profunda expressão simbólica ligada a comportamentos ancestrais mas também aos nossos inconscientes colectivos nos quais residem o mundo dos arquétipos e dos mitos.

Os primeiros fogos de artifício são oriundos da China onde já eram utilizados nos séculos VIII e IX da nossa era. Na Europa foram introduzidos por Marco Polo no século XIII após sua longa viagem a China.
A pólvora teria sido utilizada em primeiro lugar para as armas de fogo e em seguida começaram a aproveita-la para imitar o fogo durante certas celebrações.
Isso, conduz-nos à nossa primeira reflexão sobre o acto da criação do fogo.

Há 500.000 anos, o homem começava a domesticar o fogo; este acto extraordinário permitiu ao homo rectus de melhorar consideravelmente a sua vida, deu-lhe a possibilidade de poder utiliza-lo de varias maneiras: aquecer-se, cozinhar os alimentos, transformar os materiais, criar instrumentos e armas, iluminar a noite, proteger-se contra os animais selvagens, dos inimigos etc.

É no paleolítico superior que o homo sapiens consegue criar o fogo através da técnica de percussão de sílex e mais tarde no neolítico através da técnica de fricção da madeira. Embora até as referidas épocas, o homem já tivesse utilizado o fogo, o facto de poder criá-lo com as suas próprias mãos causou uma profunda transformação na sua evolução. Enfim, tornava-se ele mesmo inventor de uns dos elementos da natureza e esta descoberta marcaria tanto a humanidade que seria difícil hoje nominar todas as referências ao fogo que existem nos mitos, nas metáforas, nos rituais, nas especulações filosóficas, intelectuais e psicanalíticas.
O mito que enuncia melhor esta descoberta e suas consequências é indubitavelmente o de Prometeu . Filho dos Titãs, Prometeu era um gigante cujo Zeus temia o poder. Profeta e inventor, Prometeu criou a partir de um bloco de argila misturado com agua o primeiro ser humano. Não querendo deixar sua criatura desfavorecida, Prometeu foi roubar a Roda do Sol uma faísca, e de regresso à terra ofereceu a fonte de fogo divino, aos homens.(1) Este acto foi interpretado por Zeus como um desafio aos Deuses e decidiu punir a humanidade inteira provocando uma grande inundação. Para Zeus, não era somente um assunto de orgulho ferido mas também e sobretudo, receava o domínio do fogo pela mão do homem, que poderia igualar-se aos Deuses.
Este mito reconstitui perfeitamente o quanto os actos de apropriação e de domesticação do fogo marcaram a humanidade e encontra-se ancorado nos nossos inconscientes colectivos como um arquétipo.
Carl G.Jung, mestre na psicologia dos arquétipos, explica as origens do nome Prometeu, como “de origem idêntica do nome Hindu, Pramantha = pedaço de madeira macho que faz o fogo por fricção. Este é um instrumento do Mantanha - sacrifício do fogo- e é considerado como sexual nas Índias. O pramantha é o falo ou homem, a madeira escavada colocada por baixo é a vulva ou mulher, o fogo obtido por escavação é Agni, a criança, o filho Divino. O simbolismo sexual da criação do fogo fica aqui evidenciado(2).
O fogo estaria por conseguinte relacionado com a nossa sexualidade principalmente como símbolo pré-sexual da transformação da libido. Já que a sexualidade é a componente psíquica dotada da mais forte tonalidade afectiva, as regressões assim como os rituais primitivos manifestam uma analogia com ela.
A cerimónia do fogo é um exemplo da canalização progressiva da energia psíquica em acção.
Assistir à um lançamento de fogos de artificio é por conseguinte, um ritual “moderno” que volta a por em cena as antigas cerimónias de fogo que põem em acção a transformação desta energia sexual.
Sigmund Freud denominava esta transformação da libido através de cerimónia e criação artística, de acto de sublimação que reencontramos também, hoje em dia, através de uma abordagem de psicoterapia chamada de arte-terapia.

Reencontramos esta visão junto de G.Durand que distingue com G.Bachelard (3), duas direcções ou constelações psíquicas na simbólica do fogo, seja este obtido por percussão ou por fricção. No primeiro caso, possui um valor de purificação e de iluminação, é o prolongamento da luz. A este fogo espiritualizante, podemos ligar os rituais de incineração, o sol, os fogos de elevação (fogos de artifício) e de sublimação ou qualquer fogo que transmite uma intenção de purificação e de luz.
No segundo caso, trata-se do fogo sexual obtido por fricção.
O fogo de artificio é sobretudo um grande espectáculo que nos põe em relação com a criação. O céu, é para o pirotécnico o equivalente da tela branca para o pintor e as suas criações tornam-se uma projecção e uma identificação da nossa capacidade em sublimar as nossas emoções e o nosso mundo inconsciente. Da mesma maneira, que a obra prima de um mestre consegue colocar-nos em relação com o nosso mundo interno inconsciente fazendo emergir emoções insuspeitas que podem até fazer-nos viver experiências transpessoais, os fogos de artifícios são, em certa medida, seu equivalente, com a diferença que nos fazem entrar em contacto com a noção budista da impermanência das coisas.
Nada é permanente, tudo transforma-se e uma vez terminado, só permanece da sua passagem, as nossas lembranças através das intensas emoções guardadas no nosso corpo e na nossa mente.
A visão das explosões nocturnas das cores dos fogos no infinito do céu é por conseguinte uma profunda experiência interior.

O céu escuro tem igualmente um profundo significado; de facto, é o símbolo complexo da ordem sagrada do universo, que se revela pelo movimento circular e regular dos astros. Mas também, faz-se ocultar, sugerindo apenas as ideias de ordens superiores ao mundo físico e invisível, a ordem transcendente do divino e a ordem imanente do homem (4)
Não esqueçamos que o homem sempre esteve voltado para o céu nocturno, para situar-se melhor na terra e através da sua intensa observação procurar presságios nas passagens dos cometas. Libertando-se em todas as direcções, as explosões de cores e luzes dos fogos de artifício tendo como fundo a noite, não poderiam enunciar como diz G.Romey (5), uma disposição do ser que se abre a todas as possibilidades?
Exprime ao nível inconsciente uma adesão repentina à evolução e ao futuro, neste infinito, tudo fica possível.

Outro aspecto digno de interesse que relaciona fogo à psicologia é explicado por G.Bachelard (6), denominado o Complexo de Prometeu.
O fogo é ambivalente, portanto, pode tanto aquecer como queimar ou destruir e segundo Bachelard a experiência infantil da queimadura causada pela chama é secundária na nossa experiência do fogo; aquilo que nos marca primeiro é a proibição em tocar.
Por conseguinte, o único meio para conhecer o fogo é desobedecer.
A criança é como um “pequeno Prometeu”, que rouba fósforos para tentar a experiência da faísca. O ser humano tem vontade, necessidade de compreender e de agir.
O complexo de Prometeu definiria tudo aquilo que nos leva a saber, tanto mais que os nossos pais e que os nossos mestres...
O complexo de Prometeu é o complexo de Édipo da vida intelectual (p.31)
Reencontramos este acto de desobediência nos fogos de artifício, com a diferença que não tocamos os fogos, apenas os olhamos. Este espectáculo permite-nos brincar com o fogo sem estar a tocar, evitando-nos assim cometer um acto proibido. Dá-nos acesso a uma jubilação interna de ordem libidinal sem que tenhamos que confrontar-nos com a proibição de tocar. Somos espectadores, não actores.
A nossa criança interior pode “participar da festa” e desafiar o interdito sem ser punida.

Os fogos de artifício são também uma complexa mistura química que podemos igualmente analisar sob o angulo da alquimia. A nossa visão actual dos alquimistas é a de velhos loucos que pretendiam transformar o chumbo em ouro. O que as vezes não queremos enxergar é que a maior parte deles eram grandes sábios, descendentes espirituais dos gnósticos(7). Estavam a procura do conhecimento e da transformação interna hoje denominada de psicanálise ou psicoterapia transpessoal. Para eles, o fogo era um forte agente transformador e uma das etapas da obra alquímica era o processo de combustão que chamavam de calcinatio. Permitia purificar a prima materia até que o essencial permanecesse. De um ponto de vista psicológico, esta metáfora corresponde a épocas de paixões nas nossas vidas quando tudo se inflama. Mas também nas quais o nosso entusiasmo e nossas acções podem ser contrariadas por circunstancias alheias, ocasionando-nos sentimentos de raiva e de frustração, é o dilema do desejo frustrado(8). Os fogos de artifício são uma identificação e uma projecção inconsciente deste calcinatio interno que explode sendo assim libertado.

Em conclusão, quando forem assistir ao espectáculo de fogos de artifício no Mundial de Pirotecnia 2006 em Lisboa, não será necessário que se lembre de todas essas reflexões para apreciar esta linda apresentação. Mas, mesmo assim, tentem recordar “o velho Prometeu” e seu desafio lançado aos Deuses ou talvez recordar os homens das cavernas, nossos antepassados, fascinados pelo fogo e certamente isso permiti-vos-a de apreciar ainda mais a beleza do espectáculo.

Nathalie Durel

Referencias
1)Dictionnaire de la Mythologie Grecques et Romaine – Ed.Larousse
2)Métamorphoses de l´âme et ses symboles – C.G Jung – Livre de poche
3)Dictionnaire des symboles – J.Chevalier, A.Gheerbrant – Ed.Robert Laffont
4)Dictionnaire des symboles – J.Chevalier, A.Gheerbrant – Ed.Robert Laffont
5)Dictionnaire de la symbolique II – G.Romey – Ed.Albin Michel
6)Psychanalyse du feu – G.Bachelard – Ed.Broché
7)Astrologia e mitologia – A.Guttman, K.Johnson – Ed.Madras
8)Les dynamiques de l´inconscient – L.Greene – Ed.Rocher

© Nathalie Durel – 2006 – Todos direitos reservados
Revista Psicologia Actual - Março 2007
DIA INTERNACIONAL DA MULHER

O 8 de Março é o dia internacionalmente escolhido para homenagear as mulheres em memória do dia 8 de Março de 1857, no qual, numa fábrica de têxteis de Nova Iorque, as operárias entraram em greve e ocuparam a fábrica para reivindicar a redução do horário de trabalho de mais de 16 horas diárias para 10 horas. Reivindicavam também um aumento de ordenado já que recebiam para trabalhar às 16 horas menos de um terço do salário dos homens. Foram fechadas na fábrica e, entretanto, deflagrou-se um incêndio no qual 130 mulheres morreram queimadas.
Foi, na conferência internacional das mulheres na Dinamarca que, em 1910, decidiram homenagear àquelas mulheres e o 8 de Março seria relembrado anualmente como o “Dia Internacional da Mulher”.
Neste dia, pretende-se raciocinar sobre o papel da mulher na sociedade, contestar e rever preconceitos e limitações impostos à mulher que atinjam sua dignidade.
Até hoje, o trabalho efectuado pelas mulheres para a igualdade de direitos foi extraordinário e precisamos continuar porque como todas nos sabemos, existe ainda muita “luta” pela frente para conquistar novos direitos e também para manter aqueles que foram adquiridos.
Não resta dúvida que o século XX foi o século da mulher e que foram preciso actos muitas vezes extremos e muito corajosos para conseguirmos efectuar as mudanças necessárias na revalorização como seres humanos dignos e repletos de qualidades que somos. É por ter lutado tanto e terem conseguido tantas mudanças desafiadoras que gostaria de aproveitar este dia para dar meus parabéns a todas as mulheres que lutaram e lutam ainda em Portugal e no mundo.

Ultimamente, as mulheres estão também fazendo um outro tipo de “revolução”. Desta vez é dentro delas e é no íntimo do seu ser que elas efectuam grandes tomadas de consciência acompanhadas de profundas transformações, muitas vezes através de psicoterapias ou outros meios terapêuticos. Essas conscientizações as levam a optar por mudanças concretas que melhoram tanto as suas vidas como a de seus filhos e consequentemente a nossa sociedade, em geral.
O 8 de Março é também fundamental para que nós mulheres refletíssemos sobre o nosso valor profundo e sobre as tomadas de consciência que ainda precisamos fazer para mudar e melhorar as nossas vidas, as das nossas famílias e da sociedade.
No dicionário, a definição da palavra mudança é: ação de alterar; resultado desta ação. Os termos conexos são numerosos e iluminam-nos largamente sobre a amplitude da sua ação: transformação, perturbação, renovação, modificação, transição, metamorfose, mutação, deslocação, instabilidade, movimento, alterar, deformar...etc. só para citar alguns!
Carl Gustavo Jung fez dos arquétipos um dos eixos principais da sua teoria analítica. Estes são considerados como imagens primordiais inscritas no inconsciente coletivo dos homens desde o início da humanidade. Reencontramo-los nos mitos primordiais, as religiões, as lendas que alimentam o patrimônio coletivo e que nos influenciam conscientemente e, sobretudo inconscientemente.
Só para citar alguns exemplos: o arquétipo da mãe, do pai, da criança, do herói, do dragão, da bruxa, do divino, da morte e transformação...e da mudança.
Numerosos mitos falam-nos da mudança e da transformação, mas, no que diz respeito ao feminino, o mito Grego de Perséfone é a base fundamental da transformação feminina. É chamado na psicologia dos arquétipos de mito fundador.
«Kore (nome de menina de Perséfone que significa rapariga, moçinha) brincava acompanhada com as ninfas enquanto sua mãe Demeter (deusa da colheita e da agricultura) trabalhava por perto. De repente, o solo pôs-se a tremer, uma falha abriu e Hadés “Deus dos infernos”, emergiu das entranhas da terra apoderando-se de Kore. Levou-a à profundeza da terra e fez dela sua esposa deixando Demeter num tal estado de desespero que resolveu deixar de produzir enquanto não encontrasse sua filha, conduzindo então a humanidade inteira para um grande perigo. Após numerosas suplicações, Zeus aceitou pedir à Hades que deixasse Kore retornar à superfície da terra para reencontrar se com sua mãe e Hades aceitou. Demeter, uma vez passado a alegria do re-encontro, pergunto a sua filha se Hades tinha-lhe dado alguma coisa para comer enquanto da sua estadia no inferno, esta respondeu com ingenuidade que havia compartilhado apenas três pequenos grãos de Romã. Demeter, então, compreendeu que sua filha nunca mais seria a mesma menina já que a Romã simboliza o ciclo menstrual mas também o sêmen. Doravante seriam separadas durante dois terços do ano e Kore transformou-se então em Perséfone, deusa dos mortos e dos infernos.

Este mito fundamental marca a separação obrigatória na transformação da jovem em mulher. A relação fusional com a mãe deve cessar um dia, este estado paradisíaco que gostaríamos que fosse eterno, um dia, tem que acabar. Hades representa aqui, não só o homem que desfaz esta relação, mas também e, sobretudo a mudança profunda que decorre desta separação. Esta passagem iniciática deve ser vista como uma morte e transformação, que claro é simbolizada pelo mestre do inferno e da morte. Mas também porque através do encontro com o masculino, Perséfone torna-se por sua vez uma deusa independente de sua mãe.
Este mito explica o quanto é primordial que a mulher se questione sobre sua relação com o feminino herdado de sua mãe e das mulheres da família. Tratar os assuntos não resolvidos do passado dessas mulheres que ainda podem estar a perturbá-la de um modo inconsciente permitirá que ela seja capaz de se diferenciar e se tornar autônoma como Koré se torna Perséfone, rainha e deusa a sua vez.
Os homens da família são também importantes, principalmente o pai, porque é através dele que a menina também vai se separar da mãe, o que lhe permitirá na adolescência e na sua futura vida de mulher adulta ir de encontro ao masculino. Podemos ler este mito de um ponto de vista do encontro da mulher com seu Animus* transformador e da necessidade da vivencia com o masculino externo (através do pai, avô, namorado, marido) para que a mulher consiga identificar dentro dela seu próprio masculino e reequilibrar-se em relação ao seu feminino. (gostaria de esclarecer que a mesma situação acontece com o homem que precisa ir de encontro ao feminino externo que lhe permitirá integrar sua Anima interna)
Finalmente, este mito fundamental nos indica que precisamos descer, de vez em quando ao encontro do mundo das nossas profundezas: o nosso inconsciente. Para enfrentar o “material” recalcado que ai se encontra e voltar à superfície uma vez a transformação efectuada.
A mudança é, por conseguinte, fundamental para que haja uma evolução existencial. A natureza não gosta da estagnação, tudo está em perpétuo movimento! Este famoso provérbio Budista expressa muito bem esta lei “a única coisa perpétua é a mudança”

Cada mudança comporta pelo menos quatro fases fundamentais:
1: a identificação da problemática e a análise das necessidades estratégicas
2: a escolha da melhor estratégia
3: a preparação e o desenvolvimento do plano de mudança
4: o acompanhamento das transições organizacionais e individuais que foram desencadeadas pela mudança

O sucesso duma mudança existencial depende bastante do ultimo ponto que fala das transições que deve ser visto como um processo progressivo e que pode acontecer com uma certa lentidão. Efectua-se em três fases:
1º) identificar e desfazer-se de um velho modo de ser ou de fazer.
2º) passar por uma época confusa entre o antigo e o novo
3º) iniciar uma nova etapa com uma nova identidade ou um novo modo de fazer indo de
encontro a um novo objectivo.

Mudar é geralmente acompanhado de emoções como: o medo, a tristeza e a raiva porque sabemos que vamos ter que nos desfazer de alguma coisa. Podemos também chamar esta transição de luto, o processo do luto pode ser classificado em 5 etapas:
1: Choque e negação 2: Cólera 3: Negociação 4:Depressão 5: Aceitação e renascimento
Estas cinco fases são obrigatórias em qualquer mudança, naturalmente a intensidade e a duração de cada fase dependerão da pessoa e da situação.
Em certos casos, mudar e fazer o luto são tão dolorosos que precisamos de acompanhamento através de uma psicoterapia. Cada vez mais, as mulheres (e os homens) estão a procura de ajuda, deixaram de lado os preconceitos da nossa sociedade que ainda pensa que «quem vai ao psicólogo é maluco»!
As mulheres vêm às consultas com todo o tipo de problemática, os pedidos são recorrentes, como: reencontrar o equilíbrio existencial e emocional, a falta de auto-estima, se autorizar em ser; o equilíbrio no relacionamento entre dar-se demasiado, ou não o bastante; encontrar os seus limites internos e externos; maus tratamentos; o não poder falhar,etc. As queixas mais freqüentes são: as depressões, as angustias, os ataques de pânico e o esgotamento. Em contrapartida, e é de se lamentar, cada vez mais, jovens mulheres com problemas de anorexia.
Mas temos também que reconhecer que aparece cada dia mais, mulheres em busca de uma transformação consciente, o que nos mostra que a mulher esta a amadurecer e a se tornar “dona” dela mesma.
Para concluir, gostaria de desejar a nós todas, um feliz dia internacional da mulher e que nos sirvamos dele para fazermos um ponto da situação das nossas existências tão estressantes e exigentes. Talvez possamos refletir sobre esta frase da autora
Robin Norwood, psicoterapeuta e especialista da Co-dependência que escreve no seu livro "Mulheres que amam demais":
“Poucas mulheres são convencidas dentro delas mesmas que elas têm o direito de amar e de ser amadas simplesmente pelo facto que elas existem”.

Referencias
1)Dictionnaire de la Mythologie Grecques et Romaine – Ed.Larousse
2)Métamorphoses de l´âme et ses symboles – C.G Jung –

(*Animus: terminologia Junguiana que indica a personificação psíquica da parte masculina na mulher)

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